No artigo anterior, eu te alertei sobre o perigo de voc√™ "serperntanjo" ūüźć ser encantado por empreendedores e seus slides. E encerrei o artigo sugerindo menos PowerPoint e mais Excel.

Muitos me escreveram perguntando o que eu tinha contra PPTs. ūüôÉ. Posso ter passado a impress√£o errada de serem algo inerentemente ruim, o que obviamente n√£o √© o caso. Ent√£o, antes de falar mal deles, vamos dar um passo atr√°s e explicar o que s√£o, onde vivem, como se reproduzem: em English, para que soe mais startup business: o pitch deck.

Em bom Português: é uma pilha (deck) de slides que empreendedores (ab)usam para apresentar (pitch) sua empresa para potenciais investidores.

Conte√ļdo
O pitch deve condensar no formato de slides os principais pontos de oportunidade do neg√≥cio tendo em mente o seu p√ļblico alvo: n√≥s, os investidores. Esta cambada com d√©ficit de aten√ß√£o, falta de tempo, pouca paci√™ncia, excesso de oportunidades para investir capital (e n√£o apenas startups), alguns com idade avan√ßada (n√£o √© o meu caso!) mas ‚Ķ com capital, conhecimento e conex√Ķes que podem alavancar muito o neg√≥cio. Smart money, sacom√©! ūü§ď.

O pitch resume de forma estruturada informa√ß√Ķes suficientes para dar a dimens√£o da oportunidade e despertar o interesse do investidor em se aprofundar e saber mais.

Ou, t√£o bom e valioso quanto, j√° confirmar o desinteresse – em geral, falta de fit com sua tese de investimento – e com isso poupar tempo e energia de todos – investidores e founders – com mais reuni√Ķes e outros engajamentos que n√£o levariam a um investimento.

Os principais tópicos a serem contemplados em um pitch deck são:

  • o problema ou dor sob a √≥tica do cliente: se n√£o houver algu√©m com uma dor, nada mais interessa. NADA. Isso inclui a tecnologia, o algoritmo, o app, o website, o logo, os founders, os anjos, o pre√ßo, o ‚Ķ <insira o que mais quiser aqui>;
  • a solu√ß√£o: articulado na forma de proposi√ß√£o de valor que enderece a dor do cliente conforme slide acima. Sim, porque o cliente busca resolver seu problema. Ele at√© "paga" por um app, mas compra a solu√ß√£o pra sua dor. √Č isso que o slide deve mostrar – e n√£o, por √≥bvio, um punhado de telas de como funciona o produto;
  • o tamanho do mercado: n√ļmeros que mostrem que h√° espa√ßo para crescer (e se valorizar e capturar parte do valor gerado na forma de receitas);
  • os competidores: outras empresas, com atua√ß√£o no mesmo nicho ou correlatas, para mostrar n√£o apenas h√° mercado mas ele √© interessante, tanto que tem players atuando e, por √≥bvio, quais s√£o os diferenciais competitivos da startup para ser mais competitiva que os concorrentes;
  • a tra√ß√£o: evid√™ncias concretas que esta oportunidade j√° est√° ganhando momentum, com m√©tricas e indicadores de performance – receitas, downloads, usu√°rios ativos – relevantes no contexto da startup;
  • a tecnologia: como a startup pode usar bits & bytes para crescer exponencialmente – ganhar escala !;
  • a estrat√©gia : a t√°tica e plano de jogo que amarra os pontos apresentados: como entregar a solu√ß√£o pros problemas do perfil de clientes que t√™m esta dor, ganhando mercado dos competidores com base nos diferenciais apresentados e crescendo com uso inteligente de tecnologia;
  • o time: quem s√£o as pessoas que fazem tudo isso acontecer, porque seu hist√≥rico e forma√ß√£o as tornam unicamente capacitadas para navegar esta onda de oportunidade;
  • o modelo de neg√≥cio: como a startup gera, monetiza e captura valor, de forma ampla, que inclui (mas n√£o se limita) ao modelo de receitas – pre√ßos, assinaturas ou afins;
  • a rodada : quanto se deseja captar, quem j√° est√° comprometido, quem j√° investiu antes, o valuation (e portanto a participa√ß√£o) a ser cedida, onde se espera investir estes recursos para crescer.

Cada um dos bullets acima ir√° se traduzir em 1 slide, de modo a gerar um m√°ximo de 12 ou 15 slides que permitam compreender os fundamentos da oportunidade por tr√°s da startup.

N√£o apenas o conte√ļdo, mas tamb√©m a ordem dos slides √© de suma import√Ęncia: o pitch guarda um componente de storytelling, com come√ßo, meio e fim que comp√Ķem uma narrativa racional. Ela chega ao seu cl√≠max com o pleito de inje√ß√£o de capital para o crescimento continuado desta hist√≥ria j√° promissora.

Por que slides ?
Uma d√ļvida comum √©: por que slides? N√£o seria melhor mostrar o website, baixar o app, ler o white paper, cair numa liga√ß√£o, ouvir um √°udio explicativo, assistir o filme da vida, ler o livro da hist√≥ria geneal√≥gica da startup e seu founder desde o nascimento da ideia?

Voc√™ j√° deve ter sacado a resposta: porqu√™ PPT √© resumido. A limita√ß√£o de espa√ßo √ļtil no slide, juntamente com a simplicidade dos seus elementos – texto (bullets !), imagens, anima√ß√Ķes, gr√°ficos e links – for√ßam uma objetividade intr√≠nseca ao mundo dos neg√≥cios. Menos, neste contexto, √© mais por permitir o enfoque no que √© essencial.

Seja bem vindo ao vasto mundo das startups, habitado por seres empreendedores e seus pitch decks animados. √Č melhor conhecer e se acostumar: como investidor, uma parte significativa do seu trabalho ser√° abrir, revisar, analisar, criticar, questionar, ouvir e, em grande medida, se conter para n√£o chorar ou sair correndo antes que chegar o final de um pitch. Na forma de um ppt aberto no seu micro ou, se voc√™ n√£o for cuidadoso, em infind√°veis apresenta√ß√Ķes em reuni√Ķes, demo days, eventos ou youtube v√≠deos.

No próximo artigo vamos falar das principais cagad… erros incorridos por founders ao elaborar, apresentar e disponibilizar seus decks.